Natal, 15 de Outubro de 2008. Agora são 18:45:53 
 
 


KALINA PAIVA (Professora de Literatura e Redação )


O GRILO E OS DESTINATÁRIOS

Revirando minha gaveta de guardados, encontrei o rascunho de uma “carta” escrita em dezembro de 1998, com letras nobremente douradas. Detalhe importante: foi toda escrita na parte exterior de um envelope e enviada a Belém do Pará, para um parente que trabalhava num acampamento, cujo chefe costumava violar correspondências alheias. Segue a carta:

Todas as coisas escritas pelo mundo afora deveriam ser transparentes e diretas, afinal todos querem saber o que vem escrito, essencialmente, o que vem de dentro. É muito egoísmo de quem escreve, fazê-lo, apenas, para um destinatário quando os demais também são destinatários em potencial. Se assim não o fossem, não se interessariam por uma carta fechada, lindamente colada, ocultando palavras que poderiam voar no espaço celeste das pupilas dos leitores, revelando o irrevelável.

Deixemos as cartas e falemos dos grilos. Abruptamente, esses animais de sonoridade específicas surgem do nada para atrapalhar, semelhantemente à mudança de assunto do parágrafo anterior para este! O ouvinte começa a se incomodar, pois os grilos só possuem um função: grilar a vida das pessoas destinadoras, ou destinatárias. Esses bichos não se importam com a vida em aberto, mas sim com a vida em fechado das pessoas, cri-crilando sempre. Afinal, na natureza, ou se é grilo, ou se é pessoa. É tudo questão de estilo e espécie! E quando falamos em pessoas, falamos verdadeiramente naquelas que não se importam em grilar a vida das pessoas, mas compartilhar, trocar, abrir seu mundo e encontrar o mundo do outro.

E não é que, um dia, vi um grilo grilando a vida de umas pessoas! Eu também já fui um grilo grilante, mas depois de ser caçado por uma pessoa, vi que poderia me metamorfosear em pessoa. Deste dia em diante, decidi não compactuar com as grilagens, pois a troca era mais interessante. Grilo só vive para grilar a vidas das pessoas e, de fato, é mais cheio de vida o ato de compartilhar, sem devassar, sem exigir ou extrair com força bruta o diálogo das pessoas. Aliás, as pessoas são tão falantes... elas sempre se revelam em atos de fala, em escritos, em expressões corporais. Posso até imaginá-las uma a uma ao ler cartas. Imagino tom de voz, jeito de andar e gesticular e percebo até quando estão com raiva! Isso o grilo jamais entenderá...

É por isso que eu digo: ninguém quer saber de grilos que vivem a grilar a vida das pessoas, mas pessoas querem saber das pessoas que realmente importam. Uma vez na condição de pessoa, entende-se a vida da outra pessoa, através dos olhos cravados na carta.

Se é verdadeira a crença chinesa de que o grilo é o símbolo triplo da vida, da morte e da ressurreição, fico tranqüila, pois sei que sempre haverá um grilo vivente que morrerá para ressurgir como pessoa e enxergar o outro como uma via escrita de mão dupla.

 

 
 
 
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